A névoa envolvia as atrações da feira convidando-o a permanecer ao lume e animar a sua alma com um café quente adoçado com as histórias dos mais anciãos. Nuno Sousa-Oliveira de Todos Os Santos só escutava a inquietude que lhe marcava o seu coração sentindo uma opressão no peito que lhe impedia respirar. O seus pensamentos atordoavam-lhe. Ele lembrava as noites em que ela lhe falava das estrelas, das luas cheias, das constelações, de sonhos, de caminhos remotos, de oceanos infinitos sulcados por grandes embarcações que ele nunca vira, da esperança. Sempre escondida. Sem lhe permitir aproximar-se.
—Por que não me mostra o seu rosto? Talvez lhe desagrade a minha obesidade? —perguntava-se Nuno.
As lembranças da sua voz, da cadência do seu riso limpo como o céu estrelado, da sua figura apenas vislumbrada, de seu cheiro, dos seus cabelos a dançar na brisa da noite, tinham-lhe negado o sonho. Tinha que olhá-la nos seus olhos. Descobri-la. Abraçar os seus medos.
—Deixa-a, ela far-te-á infeliz —os anciãos do Circo diziam-lhe.
Não lhes escutava. Estava apaixonado. À hora costumada ele saiu da sua tenda. Encontrou-a no carrossel onde se refugiava quando a feira ficava vazia. Montada num dos cavalos. Abraçada à cabeça de madeira.
—Quero ver o teu rosto —sussurrou o Nuno.
Ela calou, amadurecendo a sua resposta. Virou-se mostrando o seu rosto coberto com uma longa barba preta, iluminado por uns brilhantes olhos azuis como o oceano e uma lua cheia por boca. Sem dizer palavra alguma, ela esperou a sua reação.
—Oh!, tens o mar nos teus olhos. Viajemos juntos pelos caminhos remotos, alcancemos as estrelas; eu velarei os teus sonhos, eu serei o teu despertar —disse o Nuno entusiasmado.
—Não é possível. Eu não tenho amor por ti.
Nuno ficou um longo tempo em silêncio. Assimilando a resposta dela. Aceitando a realidade. Com o seu coração quebrado.
—Qual é o teu nome? —preguntou-lhe com afliçao.
—O meu nome é Soledade —respondeu ela voltando-lhe as costas.
Nuno Sousa-Oliveira de Todos Os Santos abraçou-se à névoa e afastou-se envolvido pela música do carrossel que, uma noite mais, ela punha em funcionamento. Quando o público já não estava. Enquanto ela gritava o seu nome ao vento e se encontrava consigo mesma.
Publicado en la Revista «Chat» (EOI), nº 13- 2020

